quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Rodopio

Qualquer chuva rasa
Pra me afogar de brinquedo
Pular poças 
Deslizar gotículas 

Gritar ridículas
Forjar arremedo
Sem medo

Nossas iniciais
Nossos finais
No tronco morto
Da árvore torta

Nem morta
Nem mordo
Nem seguir
Nem ficar 

Rodopiar feito Tatit
Chapar feito 
tá tudo bem
Mesmo que nem

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Desmedida

Quantos cigarros de espera
O peso que carrego
Por estragar tua vida
O peso de ser
Quimera proibida

Quisera ser a fumaça 
Cinza, efêmera
Quisera a leveza 
De uma risada espontânea 
Ou de uma piada tacanha

Quisera ser teu desejo 
Ao alcance de um beijo
Uma espiada pela fresta
Dos teus olhos

Testa com testa
Boca com boca
A sílaba rouca 
Louca, louca

Luz do sol

Que a luz do sol
De repente apareça 
Atrás das folhas
Dos galhos, brilhando sobre o rio

Que um fio de esperança 
Seja uma lembrança 
Do que ainda aconteça 

Que a solidão 
Solte minha mão
Que uma desconhecida 
Me reconheça 
Perdida
Avessa 

Vejo o sol
Me veja

domingo, 13 de abril de 2025

Outonais

No amanhacer de sol tímido, de um outono qualquer. No canto dos pássaros que perderam a hora, sem bando, sem exatidão. Bater de asas, numa dança solitária. Meu corpo é só um amontoado de átomos, podia muito bem ser a cadeira que me sustenta, ou a caneta que rabisca. Entre músicas e lembranças imprecisas, entre a dor e um suspiro de prazer. Viver não devia ser um absurdo, e na falta de sentido, pra além do utilitarismo ordinário, um pouco de poesia. Mais que necessário, a preencher a sala vazia, cheia de espaço, e de tempo escasso.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Três vezes quatro

Meu corpo é alvo

Caminho destemida

Inda que pague com a vida


Sou invés, sou revés

Sou talvez

Sou tudo aquilo que temes

Sou Ártemis 


Sou tudo que odeias

Meu sangue corre nas veias

Mesmo que jorre nas ruas

Nao hei de hesitar 


Meu verbo

É reverberar

sábado, 26 de outubro de 2024

Abstrato

A consciência é folha boiando nas águas turvas dos acontecimentos, tragados pelo redemoinho do tempo. Uma folha verde amarelada que ocupa diferentes lugares no espaço. Está aqui e acolá, já foi e continua sendo. Com os anos, o mistério perde o verniz, ou são nossos olhos que desbotam? Quando as respostas ressecadas por um realismo catastrófico preponderam sobre a imaginação, não é mais possível decifrar imagens em nuvens quietas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

sábado, 17 de agosto de 2024

Quereres

Quisera ser vento
Fluir por entre os corpos
Lugar comum 
Dos caminhos tortos 

Quisera minha boca 
Batom borrado
Nalgum ou 
Num bocado 

Quisera as cores 
À monocromática tela
Da cor dramática
Dos olhos dela

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Sociedade de consumo

A melancolia é um lugar comum. Ponto íngreme, o desejo e espanto de pular o som que os ossos fariam. O universo pequeno nos olhos de qualquer. A melancolia é um café com a dose certa de açúcar, capaz de te aquecer sem enjoar. A melancolia do final de um domingo que já foi, não  é doce, nem instiga. Quero morrer numa segunda feira. Não quero morrer, mas, posto que morro um cadinho por dia, que seja segunda pela manhã. Diante do cansaço e da esperança estúpida de um dia ser tudo que se quis, ou de apenas sobreviver mais seis dias a essa forma insólita e burra na qual desperdiçamos a vida, na tentativa vã de não padecer. Pagamos para não viver, morremos de esperar o dia em que viveremos, qualquer coisa de real importância. Qualquer pôr do sol, qualquer água gelada. Qualquer risada, ou choro sincero. Qualquer melodia.

sábado, 27 de julho de 2024

Mecânica

Amor tem conserto?
Cola que segure
Jeito que aprume
Ou arremedo?

Amor acaba
Ou se esconde?
Amor perdido
No fundo d'onde?

Amor tem saudade
De ser criança 
Amor de verdade
Balança 

Mas não cai
Se cair é vaidade
Não era amor
Ou já era tarde

Rodopio

Qualquer chuva rasa Pra me afogar de brinquedo Pular poças  Deslizar gotículas  Gritar ridículas Forjar arremedo Sem medo Nossas iniciais No...